Logo

Ghost Town: Ricky Gervais e a comédia de fantasmas que surpreendeu a crítica americana

Aclamada pela crítica, mas ignorada nas bilheterias por erros de marketing, a comédia romântica de 2008 provou o talento de Ricky Gervais em Hollywood e se consolidou como uma pérola subestimada do gênero.

Cena do filme Ghost Town com Ricky Gervais

O ghost town, lançado em 2008 com direção de David Koepp e com Ricky Gervais no papel central, é uma das comédias românticas mais bem avaliadas da sua década, com uma aprovação de 87% no Rotten Tomatoes que refletia o consenso de que o filme havia feito algo genuinamente difícil, usar a premissa de comédia sobrenatural, um dentista que começa a ver fantasmas depois de uma experiência de quase-morte, para criar um estudo de personagem com profundidade e coerência que o gênero raramente permite.

Ricky Gervais no cinema americano

Ricky Gervais havia construído sua reputação com The Office britânico e com Extras, duas séries que usavam o humor de constrangimento e de inadequação social de formas que o tornaram o principal exportador de comédia britânica contemporânea para o mercado americano. Ghost Town foi a primeira tentativa significativa de Gervais como protagonista de um filme de grande estúdio americano, e a questão era se o tipo de humor que funcionava em séries de câmera na mão com improvisação poderia funcionar dentro da estrutura mais rígida de um roteiro de comédia romântica hollywoodiana.

A resposta foi que funcionava, com Gervais encontrando em Bertram Pincus um personagem cuja antipatia fundamental era genuinamente engraçada mas que tinha as raízes psicológicas necessárias para que a transformação ao longo do filme fosse crível. O humor de Gervais em Ghost Town é mais contido do que nas séries britânicas, mas o timing específico que o ator desenvolveu em décadas de comédia de palco e televisão está intacto em cada cena.

Tea Leoni como Gwen, a arqueóloga que o fantasma de Frank quer proteger, e Greg Kinnear como o próprio Frank criam um triângulo com Pincus que o roteiro de Koepp e David Diamond usa para explorar tanto o humor quanto o drama emocional que a premissa contém. Kinnear como o fantasma tem uma função específica de ser ao mesmo tempo a razão pela qual Pincus é forçado a se envolver na vida de outras pessoas e o personagem que mais claramente documenta como o amor pode sobreviver além da morte, e Kinnear entregou essa dupla função com o charm natural que havia demonstrado em filmes como De Olho no Amor e Algo Mais.

A bilheteria decepcionante e o marketing equivocado

Ghost Town arrecadou apenas 27 milhões de dólares contra um orçamento de 20 milhões, um desempenho que a Paramount atribuiu parcialmente a uma campanha de marketing que não conseguiu comunicar o tom do filme. Os trailers venderam uma comédia sobrenatural convencional, enquanto o produto final era uma comédia romântica melancólica com humor britânico seco.

Esse desalinhamento entre o marketing e o produto é um dos problemas mais comuns em filmes que não se encaixam em categorias comerciais estabelecidas, e Ghost Town é frequentemente citado em análises de indústria como exemplo desse fenômeno.

Depois de Ghost Town, Gervais dirigiu e estrelou O Primeiro Mentiroso e Cemitério Sem Lei, projetos onde manteve controle criativo maior mas que tiveram alcance comercial limitado. O comediante eventualmente retornou ao formato que melhor domina com a série After Life, produzida pela Netflix e escrita, dirigida e protagonizada por ele.

A trajetória sugere que a persona de Gervais funciona melhor quando ele controla o produto inteiro, e que Ghost Town representa um dos poucos casos em que um diretor externo conseguiu usar suas qualidades dentro de uma estrutura de estúdio.

O elenco de fantasmas e a construção do universo

Uma decisão inteligente do roteiro é dar a cada fantasma um pequeno arco próprio, com a mulher que quer avisar a filha sobre algo, o operário que morreu sem se despedir e os outros que perseguem Pincus com pedidos específicos. Essas subtramas ocupam poucos minutos cada mas criam a sensação de um universo povoado por pessoas com histórias completas.

Essa densidade de personagem em papéis mínimos é característica de roteiristas experientes, e é o tipo de detalhe que separa comédias de premissa bem construídas de produções que tratam a ideia central como suficiente.

Ghost Town se insere numa tradição específica do cinema americano que usa a presença de fantasmas não como elemento de horror mas como dispositivo para comédia e para reflexão sobre arrependimentos não resolvidos, que inclui desde O Fantasma Apaixonado de 1990 até Truly, Madly, Deeply e, numa versão mais recente, Além da Eternidade. O que distingue Ghost Town dentro dessa tradição é a centralidade do protagonista humano como objeto de mudança, com Pincus sendo o personagem que mais claramente precisa ser transformado pelo encontro com os mortos em vez de ser o instrumento da transformação dos fantasmas.

As subtramas dos fantasmas, com a mulher que quer avisar a filha sobre algo e o operário que morreu sem se despedir, ocupam poucos minutos cada mas criam a sensação de um universo povoado por pessoas com histórias completas. Essa densidade de personagem em papéis mínimos é característica de roteiristas experientes, e David Koepp, que havia escrito Jurassic Park, Missão Impossível e Guerra dos Mundos, demonstrou em Ghost Town uma economia narrativa notável, sem cenas desperdiçadas e com um terceiro ato que resolve tanto a trama sobrenatural quanto a emocional com uma eficiência que roteiristas menos experientes raramente alcançam.

Ghost Town permanece um dos casos mais claros de filme que a indústria não soube posicionar e que o público consequentemente não encontrou, apesar de reunir todos os elementos que normalmente produzem sucesso. A qualidade do roteiro, a competência do elenco e a precisão da direção estavam todas presentes, e nada disso bastou diante de uma campanha de marketing que vendia o produto errado para o público errado.

 

Categorias do Artigo

Pedro Henrique

Blogueiro, apaixonado por jogos, gosta de pesquisar e estar informado sobre novidades do mundo tecnológico.
    💬

    Nenhum comentário!

    Seja o primeiro a compartilhar sua opinião ou fazer uma pergunta.