Redes de farmácias perdem R$ 1,6 bi na Bolsa após avanço do Mercado Livre e fiscalização da Anvisa
As três principais redes de farmácias listadas na Bolsa de Valores brasileira (B3) — RD Saúde (Raia e Drogasil), Pague Menos e Panvel (Dimed) — acumularam uma perda conjunta de R$ 1,6 bilhão em valor de mercado entre 23 de setembro e 1º de outubro de 2026. A desvalorização refletiu o receio do mercado financeiro diante da entrada agressiva do Mercado Livre na venda de medicamentos com prescrição médica e os desdobramentos de uma fiscalização aberta pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O recuo nas cotações foi desencadeado pelo anúncio da ampliação do catálogo da plataforma de e-commerce para a comercialização de remédios de tarja vermelha e controlados (sujeitos à retenção de receita médica), como antibióticos e canetas emagrecedoras, acompanhado da oferta de entregas rápidas em até 60 minutos na Região Metropolitana de São Paulo em parceria com drogarias locais.
Notificação da Anvisa e questionamentos regulatórios
Em resposta à movimentação do mercado e à denúncia formal apresentada pela Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a Anvisa notificou o Mercado Livre para que preste esclarecimentos detalhados sobre suas operações com produtos farmacêuticos.
O órgão regulador solicitou comprovações sobre:
- A regularidade dos alvarás sanitários e autorizações de funcionamento da farmácia responsável pelas dispensações.
- A identificação do farmacêutico responsável técnico encarregado pela conferência e validação das receitas médicas.
- Os procedimentos logísticos adotados para o acondicionamento e transporte seguro de medicamentos sensíveis.
O embate central reside na interpretação da legislação federal sancionada em março de 2026, que autorizou farmácias e drogarias a contratarem canais digitais e plataformas para serviços de logística. No entanto, a Anvisa ressalta que a intermediação comercial por marketplaces ainda carece de regulamentação normativa complementar, processo que segue em andamento técnico na agência.
Posicionamento do Mercado Livre e reação do setor
A Abrafarma alega que a intermediação digital de medicamentos sem regras consolidadas abre precedentes concorrenciais e sanitários de risco, apontando também a existência de anúncios irregulares de suplementos e medicamentos promovidos por terceiros na plataforma.
Por sua vez, o Mercado Livre informou que cumpre rigorosamente as normas sanitárias vigentes por meio de farmácia licenciada própria, onde farmacêuticos habilitados avaliam cada receita antes da liberação e expedição dos pedidos. A companhia reforçou que monitora continuamente sua plataforma e remove de imediato qualquer anúncio de terceiros que viole suas diretrizes ou as regras da Anvisa, manifestando total transparência para colaborar com os órgãos fiscalizadores.
Após a forte volatilidade inicial provocada pelo choque concorrencial, os papéis das redes farmacêuticas ensaiaram recuperação na B3, com os investidores acompanhando de perto o desfecho da consulta regulatória da Anvisa sobre o futuro da venda digital de medicamentos no Brasil.
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