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Empresas de IA Compram Livros Raros, Digitalizam o Conteúdo e Destroem os Exemplares Físicos: Entenda a Polêmica

Laboratórios de inteligência artificial estão adquirindo obras raras e fora de catálogo em massa para obter 'dados limpos'; prática de desmembrar e destruir acervos físicos gera forte reação de preservacionistas.

Empresas de IA compram livros raros, digitalizam e destroem exemplares físicos

Uma prática polêmica e até então mantida nos bastidores da indústria de inteligência artificial veio à tona e está provocando forte indignação entre livreiros, bibliotecários e defensores da preservação do patrimônio cultural. Grandes empresas e laboratórios de IA estão adquirindo livros físicos raros, antigos e fora de catálogo em larga escala para digitalizar o conteúdo e, em seguida, destruir fisicamente os exemplares.

A revelação ganhou força após documentos judiciais de processos contra grandes empresas do setor, como a Anthropic (criadora do modelo Claude), confirmarem o uso de guilhotinas industriais para remover as lombadas de livros comprados legalmente. O objetivo? Soltar as folhas para escaneá-las em altíssima velocidade e alimentar os algoritmos de aprendizado de máquina.

Por que a Corrida por Livros Físicos? A Busca por “Dados Limpos”

Com a explosão dos modelos de linguagem (LLMs) como ChatGPT, Claude e Gemini nos últimos anos, a internet aberta foi inundada por um volume gigantesco de textos sintéticos gerados por computadores. Para os cientistas de dados, treinar uma nova inteligência artificial utilizando dados extraídos da web atual pode causar um fenômeno conhecido como “colapso do modelo”, onde a IA perde qualidade ao aprender com os próprios erros de outras IAs.

É nesse cenário que os livros físicos impressos antes da popularização da IA gerativa (especialmente obras publicadas até 2021) se tornaram um verdadeiro “ouro líquido”. Eles representam uma fonte de conhecimento humano autêntica, com gramática revisada, vocabulário rico e livre de contaminação por conteúdos automatizados.

Compras em Massa de Até 1 Milhão de Livros

De acordo com investigações recentes veiculadas por publicações internacionais de tecnologia como o Futurism, empresas especializadas em bancos de dados bibliográficos adaptaram rapidamente seu modelo de negócios para atender à demanda desenfreada dos laboratórios de IA.

A plataforma ISBNdb, que detém um dos maiores registros de livros do mundo, passou a intermediar compras em lote de até um milhão de exemplares físicos por encomenda para gigantes da tecnologia. Proprietários de sebos e livrarias de obras usadas relatam um salto repentino nas vendas: comerciantes que costumavam vender 20 livros por semana passaram a comercializar centenas de títulos de uma só vez para compradores corporativos.

A Destruição Física de Obras Raras e Fora de Catálogo

O ponto mais crítico da polêmica reside no método de digitalização adotado por muitas dessas companhias. Para reduzir custos e acelerar o processo de treinamento dos modelos, os livros passam por uma digitalização destrutiva:

  • As lombadas e costuras dos livros são cortadas com guilhotinas industriais;
  • As páginas soltas alimentam escâneres de alimentação contínua de alta velocidade;
  • Após a conversão em arquivo digital, o papel retalhado é descartado ou reciclado.

Livreiros e historiadores alertam que, entre o volume massivo de compras, estão sendo adquiridos títulos raros, edições esgotadas há décadas e exemplares únicos dos quais não existem cópias de segurança em bibliotecas públicas. Com a destruição física da obra, a única versão remanescente do livro passa a ser o arquivo digital retido no servidor privado de uma corporação de tecnologia.

Existem Alternativas Não Destrutivas?

Especialistas em preservação documental destacam que a destruição dos exemplares não é uma necessidade técnica incontornável, mas sim uma escolha financeira de corte de custos. Bibliotecas nacionais e universidades de todo o mundo utilizam há anos escâneres robóticos não destrutivos — como os desenvolvidos pela empresa austríaca Treventus.

Esses equipamentos utilizam braços mecânicos de sucção de ar e câmeras de alta precisão capazes de folhear e fotografar livros antigos e frágeis página por página sem danificar a encadernação original. Contudo, o custo desses equipamentos e o tempo por página são mais elevados do que o processo de fatiar o livro em uma guilhotina.

O Dilema Ético e o Futuro do Patrimônio Literário

A prática levanta discussões profundas sobre os limites da corrida tecnológica. Enquanto desenvolvedores argumentam que a digitalização permite preservar o conhecimento em formato digital para alimentar ferramentas de conhecimento universal, críticos apontam que a destruição irreversível de acervos físicos priva as futuras gerações de artefatos históricos tangíveis.

À medida que a escassez de dados limpos se intensifica, o mercado de livros usados promete continuar sob forte pressão, exigindo novos debates regulatórios sobre direitos autorais e preservação cultural na era da inteligência artificial.

Marcus Tavares

Marcus é o fundador da Seletronic. Além disso, é programador, e editor no site. Ama ajudar as pessoas a resolverem problemas com tecnologia, por isso criou esse site. Segundo ele: "A tecnologia foi feita para facilitar a vida das pessoas, então devemos ensinar a usá-la". Apesar de respirar tecnologia, ama plantas, animais exóticos e cozinhar.
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