Põe a taxa, tira a taxa. A poucos meses das eleições, o Governo Federal anunciou o fim da chamada “taxa das blusinhas”, medida que ficou marcada como uma das decisões econômicas mais polêmicas desde o início do atual mandato. A mudança atinge diretamente compras internacionais de até US$ 50, realizadas em plataformas populares entre os brasileiros, como AliExpress, Shopee, Shein e diversos marketplaces estrangeiros.
A decisão será oficializada por meio de uma Medida Provisória (MP) assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicada no Diário Oficial da União. Com isso, as compras internacionais de pequeno valor deixarão de pagar o imposto federal de importação de 20% criado dentro do programa Remessa Conforme.
O recuo acontece justamente em um período de forte pressão popular e desgaste político nas redes sociais, especialmente entre consumidores de baixa renda que dependiam das plataformas internacionais para comprar roupas, eletrônicos, peças de computador, acessórios e itens tecnológicos por preços mais acessíveis.
Segundo dados da Receita Federal, apenas nos quatro primeiros meses de 2026 o governo arrecadou cerca de R$ 1,78 bilhão com impostos sobre encomendas internacionais.
O que era a “taxa das blusinhas”?
O termo “taxa das blusinhas” surgiu nas redes sociais como forma de ironizar o imposto aplicado sobre compras internacionais de pequeno valor, principalmente roupas adquiridas em plataformas como Shein e Shopee.
Na prática, porém, o impacto foi muito além das “blusinhas”.
A medida afetou profundamente o acesso da população brasileira a produtos tecnológicos importados, principalmente itens vendidos no AliExpress, que durante anos foi considerado uma espécie de “shopping tecnológico do pobre brasileiro”.
Antes da taxação, milhões de consumidores conseguiam montar computadores, comprar celulares, placas de vídeo, memórias RAM, SSDs, processadores, teclados mecânicos, fones Bluetooth, peças de manutenção, adaptadores e ferramentas pagando valores muito abaixo dos praticados no mercado nacional.
Para muitos brasileiros, especialmente jovens, estudantes, técnicos de informática, trabalhadores autônomos e gamers de baixa renda, o AliExpress representava a única possibilidade real de entrar no mundo da tecnologia.
AliExpress: o mercado tecnológico acessível para quem tinha pouco dinheiro
Durante anos, o AliExpress se tornou extremamente popular no Brasil por oferecer peças e eletrônicos que simplesmente eram inacessíveis no varejo nacional.
Era comum encontrar:
- Kits Xeon baratos para montar PCs gamers;
- Placas-mãe acessíveis;
- SSDs e memórias com preços populares;
- Fones Bluetooth de qualidade por menos da metade do preço nacional;
- Telas e peças de celulares;
- Controles, acessórios e periféricos;
- Ferramentas para manutenção técnica;
- Componentes para notebooks e computadores.
Na prática, muita gente conseguiu:
- montar um computador para trabalhar;
- criar um setup gamer básico;
- abrir assistência técnica;
- estudar programação;
- começar no design;
- editar vídeos;
- entrar no mercado digital;
- trabalhar remotamente.
Em diversas comunidades de tecnologia e fóruns especializados, consumidores relatavam que, sem as importações chinesas, simplesmente não conseguiriam comprar equipamentos necessários para estudo ou trabalho.
Com a taxação, muitos produtos passaram a dobrar de preço após impostos, taxas estaduais e custos adicionais de importação.
Itens que antes custavam R$ 120 passaram facilmente para R$ 220 ou R$ 300 no valor final.
Em alguns casos, comprar dentro do Brasil continuava ainda mais caro, tornando o consumidor “preso” entre duas opções ruins: pagar muito caro nacionalmente ou desistir da compra.
O impacto nas compras internacionais
Embora a discussão pública tenha focado muito na Shein e em roupas importadas, especialistas e consumidores afirmam que o maior impacto econômico e social foi justamente sobre eletrônicos e tecnologia.
A taxação reduziu drasticamente:
- importações de peças de PC;
- compras de celulares chineses;
- aquisição de acessórios tecnológicos;
- entrada de pequenos empreendedores digitais;
- manutenção barata de equipamentos;
- acesso da população a tecnologia de baixo custo.
Após a implementação do Remessa Conforme em agosto de 2024, muitos consumidores relataram queda nas compras internacionais devido ao aumento do valor final das encomendas.
O efeito também atingiu diretamente pequenos criadores de conteúdo, gamers, técnicos e profissionais que dependiam de peças importadas para trabalhar.
Além disso, muitos usuários passaram a abandonar compras no carrinho ao visualizar o valor final com impostos.
Como surgiu a taxação
A cobrança começou oficialmente em agosto de 2024, após aprovação de um projeto no Congresso Nacional sancionado pelo próprio governo federal.
Segundo o governo, a medida buscava aumentar a arrecadação e atender pedidos de setores da indústria nacional, que reclamavam da concorrência das plataformas estrangeiras.
O programa Remessa Conforme foi criado para regulamentar e facilitar a cobrança automática de impostos sobre compras internacionais.
Antes das mudanças, compras de até US$ 50 enviadas de pessoa física para pessoa física eram tradicionalmente tratadas com maior flexibilidade tributária, e grande parte dos consumidores acabou acostumada com a prática de importar pequenos produtos pagando pouco ou nenhum imposto.
Com a nova política, a cobrança passou a ocorrer já no momento da compra.
Reação popular e desgaste nas redes
Desde o anúncio da taxação, o tema se tornou um dos assuntos políticos mais comentados nas redes sociais.
Memes, vídeos, críticas e campanhas contra a medida viralizaram principalmente entre jovens e consumidores de tecnologia.
A expressão “taxa das blusinhas” acabou se tornando um símbolo do aumento do custo de vida digital e do encarecimento do acesso à tecnologia no Brasil.
A percepção de parte da população era de que a medida afetava justamente consumidores mais pobres, que recorriam às plataformas internacionais por não conseguirem pagar os altos preços praticados no varejo nacional.
Outros impostos e medidas que afetaram o setor digital
A taxação das compras internacionais não foi a única medida econômica que impactou consumidores de tecnologia e comércio digital nos últimos anos.
Entre outras mudanças anunciadas desde o início do atual mandato, estão:
- aumento do IOF;
- imposto sobre importações de e-commerce;
- retomada de impostos para veículos elétricos;
- aumento de taxas ligadas à importação;
- mudanças tributárias sobre painéis solares.
Segundo levantamento citado pelo jornal Gazeta do Povo, foram mais de 24 anúncios relacionados à criação ou aumento de tributos desde o início do governo, média de um anúncio a cada 37 dias.
Mudança acontece em ano eleitoral
O anúncio do fim da taxa ocorre em um momento politicamente estratégico.
A menos de cinco meses das eleições, o governo busca reduzir desgaste junto ao eleitorado jovem e à população que utiliza plataformas internacionais para consumo diário.
O tema havia se transformado em um dos principais símbolos de insatisfação digital do atual mandato, principalmente entre usuários de redes sociais, gamers, consumidores de tecnologia e compradores frequentes de marketplaces chineses.
Agora, com o recuo, consumidores aguardam para entender quando a mudança entrará oficialmente em vigor e se haverá novas alterações no sistema de importações internacionais.