Logo

Aprovadas para comprar chips de IA da NVIDIA, mas sem ninguém lá dentro: investigação descobre escritórios fantasmas na China

Reportagem revela que as desconhecidas New Matrix e Maginfra receberam licença dos EUA para adquirir GPUs H200 mesmo operando em salas desertas e com elos ligados a fornecedores militares sancionados.

Aprovadas para comprar chips de IA da NVIDIA, mas sem ninguém lá dentro: investigação descobre escritórios fantasmas na China

Uma investigação conduzida pelo jornal The New York Times acendeu um alerta vermelho em Washington sobre a fiscalização das exportações de semicondutores avançados de inteligência artificial. Ao visitar presencialmente os endereços comerciais de duas empresas chinesas que acabaram de receber autorização oficial do governo dos Estados Unidos para comprar aceleradores NVIDIA H200, os repórteres encontraram apenas escritórios completamente vazios, salas abandonadas com poucos móveis empoeirados e recepcionistas de prédios comerciais que jamais haviam ouvido falar das companhias.

Pior do que a estrutura fantasma, o cruzamento de registros societários públicos revelou que os executivos e fundadores por trás dessas empresas mantêm ligações diretas com conglomerados sancionados na Entity List norte-americana por fornecerem tecnologia sensível e capacidade de supercomputação ao Exército de Libertação Popular da China.

New Matrix, Maginfra e a teia de conexões com fornecedores militares

Depois que a Casa Branca reverteu o bloqueio total de exportação no final do ano passado — permitindo a venda dos chips H200 mediante o pagamento de uma taxa de 25% sobre as receitas — e Pequim suspendeu sua própria restrição interna de importação, cerca de duas dezenas de empresas chinesas conseguiram licenças aprovadas pelo Departamento de Comércio dos EUA. Na lista figuram gigantes conhecidas como Baidu, Alibaba, Tencent, ByteDance, BYD, Tesla Shanghai e até a ZTE.

No entanto, em meio aos nomes famosos, duas empresas praticamente desconhecidas também receberam sinal verde para adquirir os cobiçados processadores da NVIDIA: a New Matrix e a Maginfra.

Módulo acelerador de inteligência artificial da NVIDIA voltado a servidores de alto desempenho

A apuração detalha o que há por trás de cada uma das licenças suspeitas:

  • New Matrix: Além de manter um escritório deserto onde vizinhos de andar afirmam nunca ter visto funcionários entrarem, o site da empresa oculta qualquer dado sobre seu histórico ou proprietários. Registros corporativos mostram que ela foi fundada por Li Bin, empresário ligado ao fundo de private equity Wise Road (sancionado pelos EUA por auxiliar Pequim na aquisição de tecnologias críticas de chips). Li Bin também preside a estatal parcial Tsinghua Unigroup e é proprietário da New H3C Semiconductor Technologies, incluída na lista negra do Departamento de Comércio por cooperação militar.
  • Maginfra: Também localizada em um endereço vazio, a empresa compartilha funcionários, patentes registradas e estrutura societária estatal com a Inspur, gigante chinesa de servidores bloqueada por Washington desde 2023 por dar suporte às forças armadas chinesas. Nos documentos de licenciamento, nem a New Matrix nem a Maginfra aparecem como usuárias finais dos chips H200: elas atuariam como montadoras de servidores de IA para repassar o hardware a “clientes finais” não revelados.
  • Zhejiang Yindun Cloud Technology: Uma terceira empresa aprovada para comprar GPUs H200 possui executivos com laços familiares diretos com o fundador do Range Intelligent Computing Technology Group, operador de data centers que já vendeu poder computacional para empreiteiras militares chinesas — sendo que a própria Zhejiang Yindun opera parcialmente dentro de um data center da Range.

Críticas à falta de fiscalização do Departamento de Comércio e da NVIDIA

A descoberta de que empresas de fachada com salas vazias conseguiram aprovação governamental levantou suspeitas de que o Departamento de Comércio dos EUA estaria apenas “carimbando” pedidos de licença em massa sem realizar checagens mínimas de segurança nacional em campo.

Ao comentar o caso, Liza Tobin, ex-diretora para assuntos da China no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, resumiu a gravidade da falha regulatória:

“Tenho uma série de preocupações de que nem o Departamento de Comércio nem a Nvidia estejam fazendo a devida diligência necessária para garantir que os termos de licenciamento estejam sendo cumpridos.”

O episódio aumenta a pressão do Congresso norte-americano sobre o modelo de licenciamento adotado desde a flexibilização das regras para a arquitetura Hopper, mostrando que a rede de intermediários criada para contornar sanções continua operando a poucos passos das linhas de montagem oficiais.

Rogério Tavares

Inovador tecnológico com uma paixão por desbravar os limites da pesquisa. Enquanto não estou imerso em experimentos e descobertas, domino o mundo dos jogos mobile. 🚀🎮
    💬

    Nenhum comentário!

    Seja o primeiro a compartilhar sua opinião ou fazer uma pergunta.